Pela manhã pessoas pediam nas portas o ‘jejum’ da Semana Santa. Algo que também fazia parte da tradição. Era quase um ritual dá-se a esmola daquele dia. E eram tantas... Nunca me esqueço deste peditório das crianças – “me dê um jejuzim pra minha mãe jejuar?”.
Alguns mais ousados aproveitavam o dia para jogar baralho e beber vinho. Os mais antigos, sobre tudo as mulheres, não gostavam desses procedimentos. Coisas que também não eram bem vistas pelo padre.
Na quarta-feira de trevas, não tinha aula. Na Quinta-feira Santa o padre da Igreja da Guia lavava os pés de alguns fiéis. Na sexta-feira da Paixão, nada no bairro funcionava (só o cinema), a não serem os templos católicos. O comércio não abria e os Bares (eram poucos por sinal) cerravam suas portas.
O Cine São José exibia a “Paixão de Cristo”, em sessões contínuas, sempre arrancando lágrimas dos assistentes. O jejum (salvo o almoço de bacalhau) e a abstinência eram rigorosamente obedecidos. A procissão do Senhor Morto arrastava multidões, chovesse ou fizesse sol, todos querendo chegar mais perto do andor pra tocar nas chagas de Cristo.
O Serra velho - Está é uma brincadeira, que poucos de hoje conhecem. Perto da meia noite, a turma se juntava, saindo para escolher a “vítima”. Era um vozerio danado pelas ruas. Trazíamos um serrote, algumas tábuas, uns amigos acompanhavam somente para chorar. O testamento do que ia ser serrado ou serrada estava escrito no bolso. Era um barulho infernal, justamente para incomodar o “escolhido(a)”. Claro que sempre tomávamos umas e outras. Logo, alguém começava a ler com voz chorosa: - Seu fulano de tal, aqui está o seu testamento, e nós gostaríamos de saber para quem o senhor vai deixar a sua filha, seu cachorro e seu dinheiro. O resto da rapaziada começava a chorar e pedir para ele não partir que ainda era muito novo. O cara do serrote começava a serrar um pedaço de tábua, reco-reco-reco-reco-reco.
E a Galera gritando - morre cabueta. Houve ate um dos Homenageados que deu tiro. Era um alvoroço só.
A cada indignação do dono da casa, a turma chorava mais e lamentava a sorte do escolhido. Claro que o dono da casa dizia cobras e lagartos e teve um que até tiro deu para os serradores. Neste momento a turma corria, sorrindo e comemorando muito. E logo começavam a escolher a próxima vitima. Mas, não se assustem se qualquer dia desses baterem na sua porta e alguém pedir para ler o seu testamento.
Reco-reco-reco-reco-reco-reco-reco.
O sábado era realmente o sábado de aleluia, quando acontecia a tão aguardada malhação do Judas, à época, um dos eventos de maior participação popular do bairro do São José. Os moradores começavam a preparar o Judas ainda na quinta-feira, tudo de forma organizada e com uma pitada de segredo – o nome do Judas escolhido só seria divulgado na última hora, geralmente um caboeta do Bairro, político corrupto, um dono de bar vadio e careiro, a fofoqueira do bairro, ou mesmo um meliante que tivesse cometido um crime hediondo (coisa difícil de suceder, naquele tempo).
O boneco era confeccionado de pano, de corpo inteiro. O cuidado maior se concentrava no rosto do Judas, que devia ter traços bem delineados para ajudar na identificação da personalidade escolhida para a malhação.
Dezenas de pessoas se concentravam na praça onde, pendurada num poste mais de 4 metros de altura, o corpo de Judas balançava devidamente protegido por uma guarda de homens determinados a evitar que alguém o “roubasse” ou começasse a malhação antes do horário estabelecido. O espetáculo ocupava praticamente toda à tarde/noite, tempo suficiente para que o boneco – já no chão - ficasse inteiramente desfigurado de levar pontapés e do agarra-agarra dos meninos em busca dos bombons que eram colocados na cabeça do Judas.
NESTA FOTO A GALERA POSA COM O JUDAS
E o lugar se transformava numa festa, em que não faltavam os vendedores de rolete, de algodão japonês, de cavaco chinês, de amendoim.
UM DOS CONVITES PATA A MALHAÇÃO
Pra fechar as comemorações, assistia-se à missa do domingo de Páscoa e as famílias se reuniam para o aguardado almoço, em que não podia faltar o velho vinho de mesa Imperial, do qual até eu – menino enxerido - tomava um “pouquinho” com que se encerrava aquela semana de outros tempos
UM DOS CONVITES PATA A MALHAÇÃO
Pra fechar as comemorações, assistia-se à missa do domingo de Páscoa e as famílias se reuniam para o aguardado almoço, em que não podia faltar o velho vinho de mesa Imperial, do qual até eu – menino enxerido - tomava um “pouquinho” com que se encerrava aquela semana de outros tempos